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Arquivo da Categoria: Auto da Barca do Inferno

O Mito de Caronte

Na mitologia grega, Caronte era o barqueiro que transportava os mortos, através dos rios Aqueronte e Estige, para o Hades, o mundo subterrâneo. A passagem era paga com uma moeda colocada na língua do morto. Atravessado o rio, tinham ainda de impedir que o cão Cérbero lhes devorasse a alma.

O excerto que vais ler pertence ao Diálogo dos Mortos, do escritor grego Luciano, onde se questionam os valores que regem a vida humana. Um escritor, Menipo, atravessa o rio Letes na barca de Caronte. As personagens são deuses, heróis e pessoas ilustres que se encontram nos Infernos após a morte. Lá constatam que o que possuíam em vida de nada lhes serve agora.

Caronte – Paga, ó maldito, o preço da pas­sagem.
Menipo – Grita, ó Caronte, se isso te apraz.
Caronte – Paga, repito, o que deves por ser transportado.
Menipo – Não podes receber de quem nada tem.
Caronte – Mas existe alguém que não tenha um óbolo?
Menipo – Se na verdade existe algum outro, não sei. Eu não tenho.
Caronte – Pois vou estrangular-te, por Plutão, ó infame, se não me pagares.
Menipo – E eu racho-te a cabeça com o bastão.
Caronte – Então terás tu feito de graça tão longa travessia?
Menipo – Que Hermes pague por mim, ele me entregou a ti.
Hermes – Por Zeus! Belo proveito se ainda tivesse de pagar pelos mortos!
Caronte – Não te largarei.
Menipo – Bem, nesse caso põe a barca a seco e aguarda. De resto, como podes receber o que realmente não possuo?
Caronte – Tu não sabias que era preciso trazê-lo?
Menipo – Sabia, claro, mas não o tinha! Quê?! Por isso não devia eu ter morrido?
Caronte – Serás tu então o único a vangloriar-se de ter atravessado de graça?
Menipo – De graça não, amigo! De facto até lancei água fora, ajudei a remar e, de todos os passageiros, eu era o único que se não lamentava.
Caronte – Isso não tem nada a ver com o preço da passagem. É necessário que pagues o óbolo. Não é permitido proceder-se de outro modo.
Menipo – Então reconduz-me à vida.
Caronte – Tu tens graça! Para que, ainda por cima, eu apanhe açoites de Gaco!
Menipo – Então não me maces!
Caronte – Mostra o que tens no alforge!
Menipo – Tremoços, se te agradam… e também a refeição de Hécate.
Caronte – Ó Hermes, donde nos trouxeste este cão? O que ele tagarelava durante a travessia, rindo e zombando de todos os passageiros, can­tando sozinho, enquanto eles choravam!
Hermes – Tu ignoras, Caronte, que espécie de homem transportaste? Totalmente livre e a quem não dá cuidado coisa nenhuma. É o famoso Menipo.
Caronte – Ah! Se um dia te volto a apanhar!…
Menipo – Sim, ó amigo, se apanhares… mas não me apanharias segunda vez!…

 Luciano, Diálogo dos Mortos

 

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Publicado por em 22 de Novembro de 2015 em Auto da Barca do Inferno, Caronte, Gil Vicente