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Conectores – exame

Questão • Exame nacional 2009 (2.° chamada)

Lê o texto. Em caso de necessidade, consulta o vocabulário apresentado.

Quase na extremidade da cidade, erguia-se a mansão dos Hamblin, uma casa de estilo um tanto rústico, com um só andar sobre o pavimento, que rasava quase com o terreno. Uma grande mancha de hera alastrava pela parede, espontada1 porém o bastante para que não chegasse a cobri-la por completo. As janelas eram baixas, algumas amoreiras de jardim erguiam sobre elas os ramos sobranceiros. Clement retirou do táxi a manta mos­queada2, a maleta de tapete, o guarda-chuva de seda, e quis pagar.
– Não tenho troco – disse o homem. E atirou para a nuca o boné de pala de oleado.
– Pode esperar, espere então.
– Oh, sim, senhor!
Clement precipitou-se para dentro, deixando a porta aberta atrás de si. Atravessou o átrio, cujo piso era de tijolo vermelho, encontrou-se no vestíbulo que era a base daquela escadaria, coração da casa inteira para onde convergiam todas as portas, ao longo da qual se exibiam preciosas cópias de Turner3 e vitrinas cujo conteúdo era como uma pintura chinesa, paisagens marítimas com ramos de coral cor-de-rosa, peixes tão alados4 como aves, conchas como templos, crustáceos como dragões listrados de negro e cor de fogo entre bivalves abertos como escrínios5 com uma pérola, um nácar6 multicor, uma pitada de areia cor de oiro ou de cinza, tudo como que flutuando numa neblina, uma atmosfera doce e solene onde os sentidos se afinam e simultaneamente se desvanecem.
– Manfredi? – chamou Clement. Sabia que ele estava ali perto, tanto conhecia os seus hábitos de ser hibernante, os seus prazeres sedentários, com os seus livros de naturalista e o seu aquário. Penetrou no aposento que antecedia a sala do aquário e que estava, como sempre, às escuras, recebendo apenas a luz duma reixa’ de ferro que comunicava para o átrio. Ali, a tonalidade era verdosa, exceto nos cantos que permaneciam nas trevas.
– Está aí alguém? – disse Clement. Ouvira um suspiro, um arfar contido, como alguém que sustém a respiração ou vai deixando que o ar se escape lentamente dos pulmões. Não obteve, porém, resposta.

Agustina Bessa-Luís, Aquário e Sagitário, Lisboa, Contexto Editora, 1995

Vocabulário

1 espontada: com as pontas cortadas; 2 mosqueada: com pintas ou manchas; 3 Turner, pintor inglês (1775-1851); 4 alados: com asas; 5 escrínios: cofres; 6 nácar: substância que reveste a parte interior de algumas conchas, madrepérola; 7 reixa: grade.

O parágrafo que se segue não pode ser a continuação da narrativa que acabaste de ler, pois apresenta dois aspetos incoerentes com o conteúdo do texto.
Clement recuou até ao aposento que antecedia a sala do aquário. Só então notou, em contraste com a luminosidade abundante que entrava pelas vidraças das janelas baixas, a presença de uma figura. Era o homem do táxi, com o seu gorro de lã, que assistira à sua descoberta, atónito.
Identifica dois aspetos que provocam essa incoerência, fundamentando a tua resposta em elementos textuais.

Preparando a resposta:
A incoerência pode resultar de desvios ao tema, de repetição desnecessária de informação, de desadequação à situação representada ou de contradições.
Existem duas contradições entre o texto e o parágrafo de continuação proposto:
1.° – a luminosidade abundante contradiz a in­dicação de que aquela divisão estava, habitual­mente, às escuras (“Penetrou no aposento […] que estava, como sempre, às escuras”);
2.° – o homem do táxi não poderia aparecer com um gorro de lã dado que tinha colocado na cabeça o seu “boné de pala de oleado”.

Resposta:
A divisão não poderia estar abundantemente iluminada, pois, de acordo com o texto, aquele aposento encontrava-se, como era habitual, às escuras (“Penetrou no aposento […] que estava, como sempre, às escuras”). O taxista usava, de acordo com o texto, um “boné de pala de oleado”, pelo que não pode­ria aparecer com um gorro de lã.

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Publicado por em 22 de Setembro de 2014 em Coesão, Exercício, Gramática, Provas